terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Que verdade?

A magazine, diante de Hermengarda, noticiava pouca verdade, ignorando a veracidade que a rodeava.
Não tinha grande conteúdo e não fazia nenhuma referência à morte do morador de rua que, a cada manhã, arrumava a trouxa frente à porta da igreja, para continuar o caminho que o empurrava para o incógnito e cujo medo fazia retroceder cada noite ao recanto da igreja.
Recordou o homem que já não a cumprimentaria de cabeça baixa, como quem tem vergonha.


Desafio nº 131 ― Hermengarda Pirraça sem S e L

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Desesperança

Vejo o campo a ondular sob o vento, observando cada espiga seca, que o frio e a ausência da água matou.
Observo o céu azul, desejando que as nuvens o preencham, e fecho os olhos, procurando sentir os pingos de chuva na face, mas apenas o vento marca presença, gelando o ar e retirando-lhe a pouca humidade que ainda permanece.
Entro em casa com os olhos embaçados, percebendo que as minhas lágrimas assinalam o fim da esperança.


Desafio nº 130 ― de espiga a esperança

domingo, 10 de dezembro de 2017

Humanidade

Confesso que cada vez me espanto menos com a natureza humana, talvez porque, por um lado acredito pouco nas pessoas, e por outro pergunto-me se existe certo ou errado. É que muitas vezes basta uma diferente cultura para classificar de mau o que nós consideramos bom e vice-versa.
Este olhar sobre a humanidade tem-me feito julgar sempre menos e duvidar sempre mais das minhas certezas anteriores.
Hoje, apenas acredito que tudo tem um propósito que desejo compreender. 


Escritiva 26 – mistérios da natureza humana

sábado, 9 de dezembro de 2017

Reconfortando-me

Às vezes, acho que sou um bocado anta.
Nasci com uma paixão inata por pastéis de nata, que ainda hoje me encantam, apesar de ter sido desencantada num dos Natais de criança. 
Eu explico: ingénua, imaginava que existia uma natureza encantada e anjos que produziam doces que espalhavam pelo mundo. A minha irmã, com naturalidade revelou-me a cruel verdade e levou-me ao café da tia para ver os empregados encherem as formas dos adorados pastéis de nata.

Quita Miguel
 
Desafio nº 129 – palavras que vêm de NATA

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Serões de ontem e de hoje


Durante anos guardou segredos. Pasmada, releu o que a gaveta escondera no quarto materno. Azedume que a deixara amarga, idiotice sabia-o bem. Nem o sol punha termo àquela tremenda asfixia, que lhe apertava a garganta, lhe ocultava qualquer pequena réstia de esperança. Era como ficar com os velhos mistérios arquivados, destruindo histórias mágicas do rio, com que antigamente eram finalizados os serões. Hoje, as reuniões eram à volta da televisão e as conversas haviam-se transformado em monólogos.

Quita Miguel

Desafio nº 128 – 12 palavras com 4 no meio

domingo, 22 de outubro de 2017

Gato Capado

cara de Flávio Fernando ficou como se tivesse sido moldada em cera, ao ler a carta: a irmã, achando-se certa, ia capar o gato.
– Como é que ela corta o que não é dela? – reclamou, procurando uma corda para fazer não sabia de quê.
Da copa de uma árvore veio um miado. Afinal, o gato estava inteiro. Só a irmã para brincar com algo tão sério.
Flávio entrou em casa, encheu um copo, descontraindo o corpo.

Quita Miguel 

Escritiva nº 25 - palavras em sequência de mudança

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Estressado


estrada encheu-se com uma estridente travagem.
– Cada vez há mais desastrados que destroem a paz – disse o maestro estressado, enquanto o gato estrábico o olhava.
estreia da nova peça estava próxima. Seria uma apresentação restrita, porém o nervosismo fazia-o querer estripar quem fizesse barulho enquanto ensaiava.
Sentado ao piano repetiu, vezes sem conta, a entrada da peça, até que as estrelas cobriram o céu e um estrondo o fez parar. Era o gato, querendo jantar.

Quita Miguel

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

terça-feira, 10 de outubro de 2017

VIDA



Percorreu o declive até ao mar, naquele final de tarde, e sentou-se numa rocha, com as ondas a refrescar-lhe os pés. O silêncio doía-lhe, porém, sabia-lhe bem. Assim, camuflava a gritaria a que fora sujeita, algumas horas atrás e que ainda a magoava.

Julgara que encontrara o amor. Um amor completo, eterno, carinhoso, no entanto talvez se tenha equivocado. Saiu de casa e andou sem destino, enquanto pensava na razão da vida.

Algumas vezes já se perguntara: «Para quê viver?». Depois alguma coisa a distanciava deste pensamento e procurava ser feliz e, algumas vezes até o conseguia, mas desta vez nada lhe interrompia os pensamentos: a praia estava deserta.

Que vida estúpida havia levado durante os seus longos anos.

Gastara a infância, estudando inutilidades. Perdera a juventude num curso superior desinteressante, porque se deixara vencer pelo cansaço de ouvir: «Se queres ser alguma coisa na vida tens de estudar.»

Ela não queria ser ninguém na vida, só queria ser ela e ela odiava estudar.

Quando terminou o curso de direito, cujas cadeiras foram feitas à primeira, apenas porque não conseguiria ouvir tudo aquilo de novo, e após o estágio, o seu primeiro ato foi suspender a inscrição. Encontrara-se perante mais uma inutilidade, que fizera apenas por não ter coragem de ser ela mesma.

Depois vieram os empregos e daqueles que até gostava, passou para aquilo que odiava porque, mais uma vez, não seguiu a sua cabeça.


Agora, sentada diante daquela imensidão perguntava-se porque se anulara sempre. Seria por comodismo, falta de coragem ou medo? Ela apostava no medo e revivendo tudo percebia que ele vinha da infância, do receio da falta de dinheiro, que ainda hoje a mantinha num emprego que era como um vómito.

Então, para quê viver? Que coisa estúpida é esta por que temos de passar?

Naquele momento, um cão deitou-se ao seu lado. Procurou em volta, contudo a praia continuava deserta. Olhou-o e sentiu-lhe a tristeza no olhar, uma tristeza igual à dela. Acariciou-o e sentiu-lhe a gratidão quando lhe colocou o focinho nas pernas.

Naquele momento, decidiu que nunca mais se deixaria maltratar, ainda que apenas verbalmente. Da sua vida iria fazer o que entendesse, sem seguir o que o mundo pensava correto.

Pegou nas patas do cão e disse-lhe:

– Anda! Vamos permitir-nos viver.



FIM



Quita Miguel

domingo, 1 de outubro de 2017

Intermitente


– Eu sinto-o intermitente.
– Hã?
– Às vezes, concorda com o que lhe proponho, para, logo a seguir, se contradizer e negar ter concordado com o que quer que seja.
– Qual é a novidade? Ele sempre foi estranho.
– Não como agora. Pressinto que desta vez seja uma situação terrivelmente ameaçadora – respondeu Fátima Conceição, com uma convicção que a amiga estranhou, ao mesmo tempo, que olhando o pai na cadeira de baloiço, acrescentou: – Acho que ele pode estar com Alzheimer.

Quita Miguel

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

domingo, 24 de setembro de 2017

Mentira

Tão grande era o desejo de Gepeto de ser pai, que um dos seus bonecos de madeira ganhou vida.
Ora, se era gente, tinha de estudar, pensou o velho e mandou Pinóquio para a escola. Pelo caminho Pinóquio ganhou dinheiro, que depressa lhe foi roubado.
Ao vê-lo a chorar, uma fada quis ajudá-lo, mas ele mentiu e o seu nariz denunciou-o crescendo.
Como seria bom que crescesse o nariz a todos sempre que faltam com a verdade.

Quita Miguel

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Foge!

– Quer dizer que não… – Cristina deixou a frase a meio, seguindo com o olhar o pequeno tornado que perseguia a gata através do jardim. 
– Foge! – gritou ela aflita, no momento em que o tornado acertou em cheio na pequena felina.
Não se sabia quem estava mais assustada, se a gata, se Cristina.
O animal olhava-a com a mesma expressão terna, como fizera centenas de vezes, a última alguns minutos atrás. Correram para os braços uma da outra.

Quita Miguel

Desafio nº 125 – tornado no jardim

sábado, 9 de setembro de 2017

Que nojo!

Frase: Pareces uma super-lula, até me dás nojo, desaparece!

Pareces aqueles políticos que só fazem o indesejado, com cara de satisfação.
Uma convencida, de quem ninguém sente saudade e de quem todos querem distância.
Até um animal me merece mais respeito.
Mesmo uma super-lula será menos destrutiva, apesar de ser uma cephalopoda.
Por vezes, me desespero quando começas a dissertar numa demagogia podre.
Não dás nada, porém queres tudo.
Ainda não percebeste que tenho nojo dos políticos como tu?
Desaparece e não voltes aqui nunca mais.

Quita Miguel

Desafio nº 124 ― és uma super-lula!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O sussurro das árvores

No sussurro das árvores, ouvimos o vento, que se expressa através de ramos e folhas, e admiramos a maleabilidade com que as árvores se moldam à sua força.
Por vezes, sopra com subtileza, quase como uma carícia, outras chega desenfreado, arrancando flores e frutos e deixando-as com um sentimento de perda.
Mas não se vergam. Persistem orgulhosamente de pé, esquecem os pedaços que o vento levou e almejam já os novos frutos, que pesarão nos seus ramos.

Quita Miguel

Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem

domingo, 3 de setembro de 2017

Mexicana

Durante o meu tempo de faculdade fui à Mexicana, no máximo, 3 ou 4 vezes e logo numa dessas vezes o universo pregou-me uma partida.
Estávamos quatro numa mesa e eu resolvi falar, de uma forma muito pouco abonatória, de um professor da minha faculdade, dando nome e sobrenome.
Nesse momento, o dito professor, que já nem me lembro como se chama, levantou-se da mesa atrás de mim, colocou-se bem na minha frente e fixou-me o olhar.

Quita Miguel

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

sábado, 2 de setembro de 2017

Josué

Talvez não saibas, mas o nome dele, Josué, persegue-o desde criança.
Era a mim que se lamentava, pela escolha infeliz da madrinha e a falta de coragem da mãe para gritar: Não!
Contudo, tu nunca o compreendeste, apesar de ele ser teu neto. Quantas vezes te quis pedir ajuda, mas a tua cara fechada afastava-o? Por uma vez na vida deixa de criticar e ouve o que Josué tem a dizer. E que tal chamares-lhe só José?

Quita Miguel

Desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Coragem para mudar

– Muito bem – concluiu Florêncio, olhando-se ao espelho e jurando mudar de vida.
A doença que lhe fora diagnosticada, mostrava como havia desperdiçado a vida. Há mais de 30 anos que fazia o que odiava, convivia com quem não lhe interessava e calava muitas das verdades que queria gritar.
Colocou o boné e enfrentou o sol quente do Alentejo, em busca do barro que a sua criatividade iria moldar.
Quanto tempo iria viver? Não sabia, mas seria feliz.

Quita Miguel

Desafio nº 120 ― reencontrar o caminho 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Lambe-botas

Porque agora tinha mais informações sobre a nova chefe, tornava-se mais fácil escolher uma prenda de aniversário.
Pouco lhe importava ser apelidado de lambe-botas.
Escolheu os crisântemos mais belos que a florista tinha e entregou o ramo à secretária, já que a chefe estava em reunião.
Assim que ele virou costas, a secretária iluminou a face com um sorriso e escondeu no ramo um alfinete. Era a sua vingança para com o lambe-botas e a nova chefe.

Quita Miguel
Desafio nº 119 ― crisântemo + alfinete

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sucesso ou fracasso?

O receio de falhar era um facto que acompanhava Félix desde criança. Cada projeto fracassado, marcava a sua vida com mais uma deceção, derrotando a sua estrutura mental. 
Sentia-se um falhado, porém nada o fazia desistir.
Enquanto planeava a identificação de cada fase do trabalho, o anseio da sua execução aumentava, no entanto, cada resolução era sempre tomada com afeto e determinação, apesar do medo do resultado final.
Sucesso ou malogro? Só no final saberia a verdade.

Quita Miguel

Desafio nº 118 – associação de palavras

sábado, 26 de agosto de 2017

Quadro roubado

Eva sempre adorou feiras de rua. Todos os sábados percorre locais onde se reúnem pessoas que procuram desfazer-se de coisas para as quais alguém talvez ainda encontre utilidade.
O melhor negócio que Eva fez e que, por um tempo, a deixou verdadeiramente orgulhosa, foi a aquisição de dois quadros com molduras de talha dourada.
Mas a alegria duraria pouco já que a polícia bateu-lhe à porta, reclamando as obras de arte roubadas e exigindo a sua devolução.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

JANTAR

– Sei lá! – respondeu Eugénia ao marido.
Ele encolheu os ombros e deixou-a com o mau feitio. Sabia o quanto a mulher estava tensa, já que seria a primeira vez que iria cozinhar para a sogra.
Decidiu-se por coelho. Colocou-o a estufar e foi regando-o com todo o cuidado, mas uma mão fugiu-lhe e o extrato de carne caiu por inteiro dentro do tacho....
Foi isso que a salvou, dando ao tempero um segredo que ela nunca revelou.

Quita Miguel



Aceito-me

– Acabaram-se as desculpas. Não é assim que se vencem as dificuldades. Hoje vais à aula de ginástica.
– Mas…
– Sim, tens psoríase. E então? Por acaso é contagioso?
– Não.
Erlandina encolheu os ombros e seguiu-a. Não havia como vencer Domingas em questões de argumentação.
Chegou o momento mais temido por Erlandina: a escolha das equipas de basquete. Dirigia-se já para o banco quando ouviu chamar o seu nome. Percebeu então que não tinha direito de não se aceitar.

Quita Miguel

Desafio nº 117 – uma história para ajudar a combater a psoríase
Temporal

– É impossível dormir com este atchim constante.
– Brrr! Para mim o pior é o frio.
Brrr booom! Os trovões acompanhados pelas batidas metálicas dos espanta espíritos clang!, blém!, blém! davam ao ambiente um ar tétric
o.
Wham! bam! A corrente de ar atirou com a porta, que eles nem sabiam que estava aberta.
– Ah! – Um tremor acompanhou o grito.
Ao susto seguiu-se a alegria. He! he! he! eh! eh! O calor da lareira chegava por fim a envolvê-los.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quarta-feira, 22 de março de 2017

Rendi-me

– Eu disse que isto era importante para ti.
Crack! Estatelei o copo no chão para não lho atirar à cabeça.
Knock! Knock! Ring! Ding!
Quem seria agora? Ainda, por cima, apressado.
O melhor era sair pelas traseiras.
Wap!
O meu irmão adivinhando-me o movimento, cortou-me o caminho com o chicote.
Aaai! Boomp!
Estatelado, não consegui evitar o soluço: Eeek! Ic!
Ufa!
Blam! Blam! Ressoou de novo a porta, enquanto o relógio indiferente contava cada minuto: tic-tac. Rendi-me.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história