quarta-feira, 22 de março de 2017

Rendi-me

– Eu disse que isto era importante para ti.
Crack! Estatelei o copo no chão para não lho atirar à cabeça.
Knock! Knock! Ring! Ding!
Quem seria agora? Ainda, por cima, apressado.
O melhor era sair pelas traseiras.
Wap!
O meu irmão adivinhando-me o movimento, cortou-me o caminho com o chicote.
Aaai! Boomp!
Estatelado, não consegui evitar o soluço: Eeek! Ic!
Ufa!
Blam! Blam! Ressoou de novo a porta, enquanto o relógio indiferente contava cada minuto: tic-tac. Rendi-me.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quinta-feira, 16 de março de 2017

SIGO

No velório, oculto a solidão, por uma atrapalhação bárbara, impossível de partilhar.
Saio de lamparina na mão, achando-me mística, procurando entender a hesitação do dedo do assassino, que me poupara do crime que terminara com a vida do meu pai.
Espicaço-me para não me sentir uma grande falida, perante o primeiro dos meus quatro filhos, cuja zanga afasta: vê-me rival, uma nota ridícula, uma ursa camuflada de Jaguar.
Uma mosca varejeira poisa no xaile e eu sigo.

Quita Miguel

Desafio RS nº 47 – 23 palavras obrigatórias!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bandidos sem pejo

Zé Júlio cruzou a rua com o coração mais acelerado do que o passo. Falava consigo próprio à medida que avançava pelo passeio:

«Escancarado? O que sucedeu? Roubo! Só pode ser um roubo!»
O suor invadia-o e não era pelo calor do dia, era pela impossibilidade de se defender.
Da mercearia pouco ficara para além das paredes e do balcão.
– Bandidos sem pejo! Exploradores do labor diário. Se eu vos agarro, desfaço-vos. Podem crer que vos desfaço!

Quita Miguel

Desafio nº 116 – Zé Júlio sem T nem H

quinta-feira, 2 de março de 2017

Talvez Amanhã...

Oiça aqui a história em 77 palavras «Talvez Amanhã…» lida na Rádio Sim pela Margarida Fonseca Santos.

http://ow.ly/LQm9309oM1W

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Fazendo gazeta

Ele tinha as sobrancelhas franzidas e isso significava que eu precisava de ser rápido no gatilho. 
– Eu ia para a escola. Abri a porta, no momento em que uma rajada de vento a empurrou contra o meu queixo. Ainda me amparei com o braço direito, mas caí, bati com a cabeça e desmaiei. Acordei mesmo agora.
– Muito bem. Agora quero ouvir a verdade.
– Bem, já acordei há um pouquito, mas ainda me sentia tonto, fiquei por aqui.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Banda desenhada

As badaladas ressoavam na sua cabeça ao mesmo tempo que ela tentava ordenar as promessas. Porque é que elas não tocam de forma mais espaçada? Bem que a meia-noite poderia ser vivida ao ralenti. Assim, talvez as promessas não se embaraçassem umas nas outras e alguma se cumprisse. 
Ema alternava o olhar entre os livros de banda desenhada que prometera abandonar e os manuais escolares onde jurara enfiar os olhos. Pois é: quem mais jura mais mente.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 16 - promessa de ano novo por cumprir

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cavalgando

Cavalgou pelo coração da floresta envolta numa nesga em luz, sentindo-se preso pela sua magia.
A mudança fizera-lhe bem, afastando-o da confusão da cidade. Fora uma decisão polémica, mas cheia de saber. Cansado de ser pisado pela rotina, erguera-se e, juntando os cacos, partira em busca do trevo.
Agora, sentia-se orgulhoso por aquela vida simples e maravilhava-se a cada flor que despontava entre as frondosas árvores.
Era ali o seu lugar, longe do mundo, perto de si.

Quita Miguel

Desafio Rádio Sim nº 46 – 12 palavras impostas

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Talvez amanhã

– Não... não! – Tentou recompor-se e prosseguir o caminho, apesar de mal conseguir andar em linha reta.
Porque bebera tanto? Porque bebia sempre tanto? Não era necessário pensar muito para descobrir a resposta: não gostava de si!
Encostou-se ao vidro de uma montra e deixou que o seu corpo grande e gordo escorregasse até se sentar no chão. Não sabia como sair do túnel em que enfiara há tanto tempo atrás. Que fazer?
– Talvez amanhã eu não beba.

Quita Miguel

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Feitiço

As mãos permaneciam imobilizadas apesar do esforço com que tentava desamarrar-se. Aquela feitiçaria era poderosa demais, mas havia um antídoto. Se ao menos se lembrasse qual era. Agora, arrependia-se de não ter prestado atenção às aulas da bruxa Numa. E não fora uma, nem duas, nem três vezes que ela se distraíra…
– Concentração. Vamos lá. Denieacação!
Nada.
– Nidecaeção! Aiiiiiiiiiii.
Os nós tornaram-se mais apertados, quase cortando-lhe a circulação. O tempo urgia.
– Canedição! Eu sabia que era capaz!

Quita Miguel

Desafio RS nº 45 – «Eu sabia que era capaz!»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

    Regresso à Simplicidade

    Este foi o texto com que se encerrou o ano de 2016 das 77palavras na rádio Sim, pela voz da Margarida Fonseca Santos. Oiça aqui:

77x77 - Quita Miguel

Palavras que criam
A pergunta que, mais frequentemente, me fazem após lerem uma das minhas histórias é:

«Como é que te lembraste de uma coisa destas?»
Por vezes, consigo explicar que tudo partiu de uma cena presenciada ou vivida, porém devo confessar que, a maior parte das vezes, fico sem resposta. Quando coloco a palavra fim, não sei mais como tudo começou. É que uma palavra levou a outra ou uma ideia surgiu num sonho talvez segredada por um anjo.

Quita Miguel

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Esmorecida

Encostada à ombreira da porta, olhava o fogo-de-artifício, que assinalava o nascer de um novo ano, e perguntava-se até quando iria sobreviver ao desalento.
O cansaço de lutar por um sonho que não encontrava espaço para se materializar, deixava-a com aquele olhar triste que a acompanhava a cada dia.
Há um ano, ainda saíra para festejar, acreditando que chegara finalmente a hora de ser feliz. Agora, sabia o quanto estava errada. Só, percebia como o sofrimento esmorece.

Quita Miguel

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular