sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Estressado


estrada encheu-se com uma estridente travagem.
– Cada vez há mais desastrados que destroem a paz – disse o maestro estressado, enquanto o gato estrábico o olhava.
estreia da nova peça estava próxima. Seria uma apresentação restrita, porém o nervosismo fazia-o querer estripar quem fizesse barulho enquanto ensaiava.
Sentado ao piano repetiu, vezes sem conta, a entrada da peça, até que as estrelas cobriram o céu e um estrondo o fez parar. Era o gato, querendo jantar.

Quita Miguel

Desafio nº 127 – stra, stre, stri e stro x 3

terça-feira, 10 de outubro de 2017

VIDA



Percorreu o declive até ao mar, naquele final de tarde, e sentou-se numa rocha, com as ondas a refrescar-lhe os pés. O silêncio doía-lhe, porém, sabia-lhe bem. Assim, camuflava a gritaria a que fora sujeita, algumas horas atrás e que ainda a magoava.

Julgara que encontrara o amor. Um amor completo, eterno, carinhoso, no entanto talvez se tenha equivocado. Saiu de casa e andou sem destino, enquanto pensava na razão da vida.

Algumas vezes já se perguntara: «Para quê viver?». Depois alguma coisa a distanciava deste pensamento e procurava ser feliz e, algumas vezes até o conseguia, mas desta vez nada lhe interrompia os pensamentos: a praia estava deserta.

Que vida estúpida havia levado durante os seus longos anos.

Gastara a infância, estudando inutilidades. Perdera a juventude num curso superior desinteressante, porque se deixara vencer pelo cansaço de ouvir: «Se queres ser alguma coisa na vida tens de estudar.»

Ela não queria ser ninguém na vida, só queria ser ela e ela odiava estudar.

Quando terminou o curso de direito, cujas cadeiras foram feitas à primeira, apenas porque não conseguiria ouvir tudo aquilo de novo, e após o estágio, o seu primeiro ato foi suspender a inscrição. Encontrara-se perante mais uma inutilidade, que fizera apenas por não ter coragem de ser ela mesma.

Depois vieram os empregos e daqueles que até gostava, passou para aquilo que odiava porque, mais uma vez, não seguiu a sua cabeça.


Agora, sentada diante daquela imensidão perguntava-se porque se anulara sempre. Seria por comodismo, falta de coragem ou medo? Ela apostava no medo e revivendo tudo percebia que ele vinha da infância, do receio da falta de dinheiro, que ainda hoje a mantinha num emprego que era como um vómito.

Então, para quê viver? Que coisa estúpida é esta por que temos de passar?

Naquele momento, um cão deitou-se ao seu lado. Procurou em volta, contudo a praia continuava deserta. Olhou-o e sentiu-lhe a tristeza no olhar, uma tristeza igual à dela. Acariciou-o e sentiu-lhe a gratidão quando lhe colocou o focinho nas pernas.

Naquele momento, decidiu que nunca mais se deixaria maltratar, ainda que apenas verbalmente. Da sua vida iria fazer o que entendesse, sem seguir o que o mundo pensava correto.

Pegou nas patas do cão e disse-lhe:

– Anda! Vamos permitir-nos viver.



FIM



Quita Miguel

domingo, 1 de outubro de 2017

Intermitente


– Eu sinto-o intermitente.
– Hã?
– Às vezes, concorda com o que lhe proponho, para, logo a seguir, se contradizer e negar ter concordado com o que quer que seja.
– Qual é a novidade? Ele sempre foi estranho.
– Não como agora. Pressinto que desta vez seja uma situação terrivelmente ameaçadora – respondeu Fátima Conceição, com uma convicção que a amiga estranhou, ao mesmo tempo, que olhando o pai na cadeira de baloiço, acrescentou: – Acho que ele pode estar com Alzheimer.

Quita Miguel

Desafio nº 126 – sentia-se intermitente

domingo, 24 de setembro de 2017

Mentira

Tão grande era o desejo de Gepeto de ser pai, que um dos seus bonecos de madeira ganhou vida.
Ora, se era gente, tinha de estudar, pensou o velho e mandou Pinóquio para a escola. Pelo caminho Pinóquio ganhou dinheiro, que depressa lhe foi roubado.
Ao vê-lo a chorar, uma fada quis ajudá-lo, mas ele mentiu e o seu nariz denunciou-o crescendo.
Como seria bom que crescesse o nariz a todos sempre que faltam com a verdade.

Quita Miguel

Escritiva nº 24 - mini histórias da infância

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Foge!

– Quer dizer que não… – Cristina deixou a frase a meio, seguindo com o olhar o pequeno tornado que perseguia a gata através do jardim. 
– Foge! – gritou ela aflita, no momento em que o tornado acertou em cheio na pequena felina.
Não se sabia quem estava mais assustada, se a gata, se Cristina.
O animal olhava-a com a mesma expressão terna, como fizera centenas de vezes, a última alguns minutos atrás. Correram para os braços uma da outra.

Quita Miguel

Desafio nº 125 – tornado no jardim

sábado, 9 de setembro de 2017

Que nojo!

Frase: Pareces uma super-lula, até me dás nojo, desaparece!

Pareces aqueles políticos que só fazem o indesejado, com cara de satisfação.
Uma convencida, de quem ninguém sente saudade e de quem todos querem distância.
Até um animal me merece mais respeito.
Mesmo uma super-lula será menos destrutiva, apesar de ser uma cephalopoda.
Por vezes, me desespero quando começas a dissertar numa demagogia podre.
Não dás nada, porém queres tudo.
Ainda não percebeste que tenho nojo dos políticos como tu?
Desaparece e não voltes aqui nunca mais.

Quita Miguel

Desafio nº 124 ― és uma super-lula!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O sussurro das árvores

No sussurro das árvores, ouvimos o vento, que se expressa através de ramos e folhas, e admiramos a maleabilidade com que as árvores se moldam à sua força.
Por vezes, sopra com subtileza, quase como uma carícia, outras chega desenfreado, arrancando flores e frutos e deixando-as com um sentimento de perda.
Mas não se vergam. Persistem orgulhosamente de pé, esquecem os pedaços que o vento levou e almejam já os novos frutos, que pesarão nos seus ramos.

Quita Miguel

Escritiva nº 23 – recomendar um destino, guias de viagem

domingo, 3 de setembro de 2017

Mexicana

Durante o meu tempo de faculdade fui à Mexicana, no máximo, 3 ou 4 vezes e logo numa dessas vezes o universo pregou-me uma partida.
Estávamos quatro numa mesa e eu resolvi falar, de uma forma muito pouco abonatória, de um professor da minha faculdade, dando nome e sobrenome.
Nesse momento, o dito professor, que já nem me lembro como se chama, levantou-se da mesa atrás de mim, colocou-se bem na minha frente e fixou-me o olhar.

Quita Miguel

Escritiva nº 22 ― apanhado em flagrante

sábado, 2 de setembro de 2017

Josué

Talvez não saibas, mas o nome dele, Josué, persegue-o desde criança.
Era a mim que se lamentava, pela escolha infeliz da madrinha e a falta de coragem da mãe para gritar: Não!
Contudo, tu nunca o compreendeste, apesar de ele ser teu neto. Quantas vezes te quis pedir ajuda, mas a tua cara fechada afastava-o? Por uma vez na vida deixa de criticar e ouve o que Josué tem a dizer. E que tal chamares-lhe só José?

Quita Miguel

Desafio nº 121 – 3 inícios de frase impostos

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Coragem para mudar

– Muito bem – concluiu Florêncio, olhando-se ao espelho e jurando mudar de vida.
A doença que lhe fora diagnosticada, mostrava como havia desperdiçado a vida. Há mais de 30 anos que fazia o que odiava, convivia com quem não lhe interessava e calava muitas das verdades que queria gritar.
Colocou o boné e enfrentou o sol quente do Alentejo, em busca do barro que a sua criatividade iria moldar.
Quanto tempo iria viver? Não sabia, mas seria feliz.

Quita Miguel

Desafio nº 120 ― reencontrar o caminho 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Lambe-botas

Porque agora tinha mais informações sobre a nova chefe, tornava-se mais fácil escolher uma prenda de aniversário.
Pouco lhe importava ser apelidado de lambe-botas.
Escolheu os crisântemos mais belos que a florista tinha e entregou o ramo à secretária, já que a chefe estava em reunião.
Assim que ele virou costas, a secretária iluminou a face com um sorriso e escondeu no ramo um alfinete. Era a sua vingança para com o lambe-botas e a nova chefe.

Quita Miguel
Desafio nº 119 ― crisântemo + alfinete

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sucesso ou fracasso?

O receio de falhar era um facto que acompanhava Félix desde criança. Cada projeto fracassado, marcava a sua vida com mais uma deceção, derrotando a sua estrutura mental. 
Sentia-se um falhado, porém nada o fazia desistir.
Enquanto planeava a identificação de cada fase do trabalho, o anseio da sua execução aumentava, no entanto, cada resolução era sempre tomada com afeto e determinação, apesar do medo do resultado final.
Sucesso ou malogro? Só no final saberia a verdade.

Quita Miguel

Desafio nº 118 – associação de palavras

sábado, 26 de agosto de 2017

Quadro roubado

Eva sempre adorou feiras de rua. Todos os sábados percorre locais onde se reúnem pessoas que procuram desfazer-se de coisas para as quais alguém talvez ainda encontre utilidade.
O melhor negócio que Eva fez e que, por um tempo, a deixou verdadeiramente orgulhosa, foi a aquisição de dois quadros com molduras de talha dourada.
Mas a alegria duraria pouco já que a polícia bateu-lhe à porta, reclamando as obras de arte roubadas e exigindo a sua devolução.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 19 ― vidas passadas de objetos

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

JANTAR

– Sei lá! – respondeu Eugénia ao marido.
Ele encolheu os ombros e deixou-a com o mau feitio. Sabia o quanto a mulher estava tensa, já que seria a primeira vez que iria cozinhar para a sogra.
Decidiu-se por coelho. Colocou-o a estufar e foi regando-o com todo o cuidado, mas uma mão fugiu-lhe e o extrato de carne caiu por inteiro dentro do tacho....
Foi isso que a salvou, dando ao tempero um segredo que ela nunca revelou.

Quita Miguel



Aceito-me

– Acabaram-se as desculpas. Não é assim que se vencem as dificuldades. Hoje vais à aula de ginástica.
– Mas…
– Sim, tens psoríase. E então? Por acaso é contagioso?
– Não.
Erlandina encolheu os ombros e seguiu-a. Não havia como vencer Domingas em questões de argumentação.
Chegou o momento mais temido por Erlandina: a escolha das equipas de basquete. Dirigia-se já para o banco quando ouviu chamar o seu nome. Percebeu então que não tinha direito de não se aceitar.

Quita Miguel

Desafio nº 117 – uma história para ajudar a combater a psoríase
Temporal

– É impossível dormir com este atchim constante.
– Brrr! Para mim o pior é o frio.
Brrr booom! Os trovões acompanhados pelas batidas metálicas dos espanta espíritos clang!, blém!, blém! davam ao ambiente um ar tétric
o.
Wham! bam! A corrente de ar atirou com a porta, que eles nem sabiam que estava aberta.
– Ah! – Um tremor acompanhou o grito.
Ao susto seguiu-se a alegria. He! he! he! eh! eh! O calor da lareira chegava por fim a envolvê-los.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quarta-feira, 22 de março de 2017

Rendi-me

– Eu disse que isto era importante para ti.
Crack! Estatelei o copo no chão para não lho atirar à cabeça.
Knock! Knock! Ring! Ding!
Quem seria agora? Ainda, por cima, apressado.
O melhor era sair pelas traseiras.
Wap!
O meu irmão adivinhando-me o movimento, cortou-me o caminho com o chicote.
Aaai! Boomp!
Estatelado, não consegui evitar o soluço: Eeek! Ic!
Ufa!
Blam! Blam! Ressoou de novo a porta, enquanto o relógio indiferente contava cada minuto: tic-tac. Rendi-me.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 18 ― onomatopeias na história

quinta-feira, 16 de março de 2017

SIGO

No velório, oculto a solidão, por uma atrapalhação bárbara, impossível de partilhar.
Saio de lamparina na mão, achando-me mística, procurando entender a hesitação do dedo do assassino, que me poupara do crime que terminara com a vida do meu pai.
Espicaço-me para não me sentir uma grande falida, perante o primeiro dos meus quatro filhos, cuja zanga afasta: vê-me rival, uma nota ridícula, uma ursa camuflada de Jaguar.
Uma mosca varejeira poisa no xaile e eu sigo.

Quita Miguel

Desafio RS nº 47 – 23 palavras obrigatórias!

sexta-feira, 3 de março de 2017

Bandidos sem pejo

Zé Júlio cruzou a rua com o coração mais acelerado do que o passo. Falava consigo próprio à medida que avançava pelo passeio:

«Escancarado? O que sucedeu? Roubo! Só pode ser um roubo!»
O suor invadia-o e não era pelo calor do dia, era pela impossibilidade de se defender.
Da mercearia pouco ficara para além das paredes e do balcão.
– Bandidos sem pejo! Exploradores do labor diário. Se eu vos agarro, desfaço-vos. Podem crer que vos desfaço!

Quita Miguel

Desafio nº 116 – Zé Júlio sem T nem H

quinta-feira, 2 de março de 2017

Talvez Amanhã...

Oiça aqui a história em 77 palavras «Talvez Amanhã…» lida na Rádio Sim pela Margarida Fonseca Santos.

http://ow.ly/LQm9309oM1W

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Fazendo gazeta

Ele tinha as sobrancelhas franzidas e isso significava que eu precisava de ser rápido no gatilho. 
– Eu ia para a escola. Abri a porta, no momento em que uma rajada de vento a empurrou contra o meu queixo. Ainda me amparei com o braço direito, mas caí, bati com a cabeça e desmaiei. Acordei mesmo agora.
– Muito bem. Agora quero ouvir a verdade.
– Bem, já acordei há um pouquito, mas ainda me sentia tonto, fiquei por aqui.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 17 – desculpas criativas

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Banda desenhada

As badaladas ressoavam na sua cabeça ao mesmo tempo que ela tentava ordenar as promessas. Porque é que elas não tocam de forma mais espaçada? Bem que a meia-noite poderia ser vivida ao ralenti. Assim, talvez as promessas não se embaraçassem umas nas outras e alguma se cumprisse. 
Ema alternava o olhar entre os livros de banda desenhada que prometera abandonar e os manuais escolares onde jurara enfiar os olhos. Pois é: quem mais jura mais mente.

Quita Miguel

Desafio Escritiva nº 16 - promessa de ano novo por cumprir

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cavalgando

Cavalgou pelo coração da floresta envolta numa nesga em luz, sentindo-se preso pela sua magia.
A mudança fizera-lhe bem, afastando-o da confusão da cidade. Fora uma decisão polémica, mas cheia de saber. Cansado de ser pisado pela rotina, erguera-se e, juntando os cacos, partira em busca do trevo.
Agora, sentia-se orgulhoso por aquela vida simples e maravilhava-se a cada flor que despontava entre as frondosas árvores.
Era ali o seu lugar, longe do mundo, perto de si.

Quita Miguel

Desafio Rádio Sim nº 46 – 12 palavras impostas

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Talvez amanhã

– Não... não! – Tentou recompor-se e prosseguir o caminho, apesar de mal conseguir andar em linha reta.
Porque bebera tanto? Porque bebia sempre tanto? Não era necessário pensar muito para descobrir a resposta: não gostava de si!
Encostou-se ao vidro de uma montra e deixou que o seu corpo grande e gordo escorregasse até se sentar no chão. Não sabia como sair do túnel em que enfiara há tanto tempo atrás. Que fazer?
– Talvez amanhã eu não beba.

Quita Miguel

Desafio nº 115 – frase de Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Feitiço

As mãos permaneciam imobilizadas apesar do esforço com que tentava desamarrar-se. Aquela feitiçaria era poderosa demais, mas havia um antídoto. Se ao menos se lembrasse qual era. Agora, arrependia-se de não ter prestado atenção às aulas da bruxa Numa. E não fora uma, nem duas, nem três vezes que ela se distraíra…
– Concentração. Vamos lá. Denieacação!
Nada.
– Nidecaeção! Aiiiiiiiiiii.
Os nós tornaram-se mais apertados, quase cortando-lhe a circulação. O tempo urgia.
– Canedição! Eu sabia que era capaz!

Quita Miguel

Desafio RS nº 45 – «Eu sabia que era capaz!»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

    Regresso à Simplicidade

    Este foi o texto com que se encerrou o ano de 2016 das 77palavras na rádio Sim, pela voz da Margarida Fonseca Santos. Oiça aqui:

77x77 - Quita Miguel

Palavras que criam
A pergunta que, mais frequentemente, me fazem após lerem uma das minhas histórias é:

«Como é que te lembraste de uma coisa destas?»
Por vezes, consigo explicar que tudo partiu de uma cena presenciada ou vivida, porém devo confessar que, a maior parte das vezes, fico sem resposta. Quando coloco a palavra fim, não sei mais como tudo começou. É que uma palavra levou a outra ou uma ideia surgiu num sonho talvez segredada por um anjo.

Quita Miguel

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Esmorecida

Encostada à ombreira da porta, olhava o fogo-de-artifício, que assinalava o nascer de um novo ano, e perguntava-se até quando iria sobreviver ao desalento.
O cansaço de lutar por um sonho que não encontrava espaço para se materializar, deixava-a com aquele olhar triste que a acompanhava a cada dia.
Há um ano, ainda saíra para festejar, acreditando que chegara finalmente a hora de ser feliz. Agora, sabia o quanto estava errada. Só, percebia como o sofrimento esmorece.

Quita Miguel

Desafio nº 114 - trocar as voltas ao ditado popular